Um semáforo que está vermelho

Apetece-me escrever sobre qualquer coisa que os humanos costumem fazer. O problema é que não me ocorre nada e sei que há muito por onde pegar. Aliás, ocorrer até ocorre. Ocorre uma lista mais ou menos extensa de coisas próprias de alguns humanos. Mas não estou inclinado para abordar nenhuma delas. Talvez as coisas dessa lista me deixem um pouco aborrecido, como se não me trouxessem qualquer espécie de motivação por serem… algo que se espera de alguns humanos?

Veja-se, por exemplo, o caso daqueles condutores que não respeitam o semáforo vermelho. Mas permita-me colocar este exemplo num contexto apropriado, não vá o meu leitor pensar que me refiro a um condutor que páre diante da luz vermelha com o objectivo de lhe lançar verbalmente umas tantas palavras ofensivas e insultuosas e que põem em causa o bom nome do semáforo. Refiro-me, pois, a uma outra situação.

Como decerto saberá, os semáforos destinados ao trânsito automóvel são possuidores de três cores: o vermelho, o amarelo e o verde. E como continuará a saber, cada uma delas encerra uma determinada informação. O vermelho indica que o condutor deve parar e dali não deve sair até que esta cor desapareça, o amarelo indica que o vermelho está iminente e o verde dá-nos licença para continuarmos a marcha (ou reiniciarmos, no caso de estarmos parados no semáforo vermelho). É uma regra simples, prática, útil e eficaz e que ajuda a organizar o trânsito e a evitar acidentes nos cruzamentos ou nos entroncamentos. Por vezes, a cor vermelha prolonga-se em demasia mas, eventualmente, terá as suas razões para essa demora e irá chegar o momento em que ficará verde. E, muito provavelmente, todos nós preferimos que todos os semáforos que vamos encontrar pelo caminho estejam verdes.

Posto isto, debrucemo-nos sobre o ponto central deste escrito. E o ponto central aborda os tais condutores que não respeitam o semáforo vermelho. Antes, porém, analisemos o ciclo iluminativo e podemos começar pelo verde, que se queda por essa cor durante algum tempo. Segue-se o amarelo durante uns dois ou três segundos e, finalmente, surge o vermelho que se mantém até ao surgir de novo verde. No verde avançamos e, no vermelho, paramos. Mas há uns quantos indivíduos que insistem em continuar a marcha mesmo que a luz vermelha já esteja acesa em todo o seu esplendor. Isto, claro, desde que o verde do outro lado ainda não se tenha acendido. Costuma haver aquele período intermédio, de uns momentos, em que o vermelho está aceso para os dois lados e em que ninguém avança. E é nesse período intermédio que os tais indivíduos se fazem passar. Com o vermelho aceso.

Ora, façamos uma espécie de engenharia reversa. Se os semáforos foram colocados num determinado local é porque há uma razão para isso. E se os semáforos respeitam um código de três cores é porque há outra razão para isso. Razões que já fiz saber num dos parágrafos acima (ajuda a organizar o trânsito, ajuda a evitar acidentes, etc). Então, se há razões práticas para a presença de um semáforo num determinado cruzamento ou entroncamento, porque razão alguns humanos se vêem no direito de ignorar o semáforo vermelho?

Quererão eles mostrar que são rebeldes? Quererão eles provocar um acidente, indo contra alguém que não teve culpa nenhuma da infracção cometida? Quererão eles mostrar que são mais fortes que o semáforo vermelho? É claro que está vermelho para os dois lados mas está vermelho e, por alguma razão, está vermelho para os dois lados (e talvez essa razão seja dar tempo para permitir a passagem daqueles que não respeitam o semáforo vermelho).

Eu percebo o ponto de infringir as regras (sejam elas ou não de trânsito). Percebo o ponto de mostrar que somos rebeldes (todos nós passamos pela adolescência). Percebo o ponto de nos rebelarmos contra a autoridade (aqui representada pelas regras de trânsito). Mas custa-me perceber o ponto em que o condutor que passa com o semáforo vermelho, arrisca-se a poder provocar um acidente com alguém que não teve culpa nenhuma do caso e que surgiu vindo do outro semáforo que, entretanto, abriu o verde. Será que esse condutor não concebe a ideia básica do “se isto, então aquilo”? Traduzindo, “se eu passar com o semáforo vermelho, posso colidir com quem vem do outro lado” (e mesmo que não seja um acidente grave, certamente terá consequências na sua própria viatura e no valor do seguro). E será que esse condutor não percebe que o semáforo vermelho do outro lado irá passar para verde a qualquer momento, fazendo avançar as viaturas que aguardam?

É como aqueles outros condutores que ultrapassam em cima de uma curva, sem terem toda a visibilidade necessária. E colidiram com o carro que vinha no sentido contrário (e que não teve culpa nenhuma da irresponsabilidade do outro).

As regras existem por alguma razão. Se não houvesse regras, seria tudo um caos. E eu não gosto de caos.

Seria útil ser criado um qualquer sistema que impedisse certos condutores de fazerem alarvidades nas estradas, como aqueles que, nas auto-estradas e afins, se colam mesmo atrás do nosso carro para que nós saiamos da sua frente porque eles acham que estão numa corrida e querem apanhar o cone de aspiração do nosso automóvel.

Este sistema impeditivo poderia, por exemplo, tirar o controlo do automóvel ao condutor irresponsável no momento em que a estupidez acontece para que não haja acidentes. E, além disso, esse condutor poderia ficar impedido de conduzir durante um determinado tempo.

E até mesmo os próprios semáforos poderiam ter um sistema qualquer que se sintonizasse com a viatura que segue em infracção e a obrigasse a parar, conforme indica a regra.

Mas, como fiz saber no início deste texto, não estou inclinado para escrever sobre um assunto que se espera que alguns humanos façam. Enfim… Nada mais a dizer.

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