Quantas estrelas conseguimos ver à vista desarmada?

Imagine que olha para o céu da noite e, de repente, sabe-se lá porquê, começa a contar as estrelas que consegue ver à vista desarmada. E conta-as uma por uma. Levanta uma mão ao ar e aponta-a a cada um daqueles pontos luminosos, somando consecutivamente um após outro. Será, muito provavelmente, garantido que, passado um bocado já não sabe quais contou e quais estão por contar. Até porque o céu vai rodando e isso faz com que as estrelas se movam em trajectórias, implicando que as estrelas contadas, já não estejam no mesmo lugar em que estavam quando as contou. Aliás, não é o céu que roda. O que roda é a Terra. Mas adiante, não entremos, para já, em assuntos que não fazem parte da introdução deste texto.

Portanto, estava você a tentar contar as estrelas que consegue ver à vista desarmada e ter-se-á perdido na contagem. Mesmo que não se tenha perdido, vamos supor que se perdeu para que eu possa dar continuidade a este texto conforme o estou a pensar. Então, como se perdeu, procura uma forma alternativa de conseguir saber quantas estrelas consegue ver à vista desarmada. E lembra-se de um livro sobre astronomia que está numa prateleira de uma estante. E que, nesse livro, é abordado o assunto das magnitudes. Esse é, pois, um método muito mais simples de conseguir a resposta que procura.

A magnitude é a unidade que mede o brilho de um objecto astronómico, de uma estrela, por exemplo. Utiliza uma escala numérica e quanto mais baixo for o seu valor, maior é o brilho de um corpo astronómico. Quer isto dizer que uma estrela de magnitude 2 é mais brilhante que outra de magnitude 5. E a magnitude pode ter valor negativos, sendo que uma estrela de magnitude -1, continua a ser mais brilhante que outra de 0, de 1, de 2, de 10 e por aí adiante.

Há alguns tipos de magnitude mas aquele que nos serve de ponto de partida para responder à pergunta “Quantas estrelas conseguimos ver à vista desarmada” é a magnitude aparente.

A magnitude aparente é o valor do brilho com que um determinado objecto astronómico se apresenta quando visto do lugar onde está o observador. É o brilho que uma estrela aparenta ter quando observada da Terra, o lugar onde estamos.

À vista desarmada, ou seja, sem usarmos binóculos ou telescópio, a vista humana consegue ver estrelas até cerca da sexta magnitude. Claro que há quem consiga ver estrelas um pouco menos brilhantes, de 6,5 magnitudes, por exemplo, e há quem não consiga alcançar a sexta magnitude. A vista varia um pouco de indivíduo para indivíduo.

Sabemos que nos dois hemisférios celestes, o norte e o sul, existem cerca de 9000 estrelas cuja magnitude aparente é inferior a 6,5. Significa isto que a quantidade máxima de estrelas que conseguimos ver à vista desarmada são cerca de 9000. Porém, tal quantidade não corresponde à verdade porque não conseguimos ver, em simultâneo, todas essas estrelas. Existem vários factores que contribuem para reduzir a quantidade de estrelas que conseguimos ver à vista desarmada. E quando os temos em conta, sendo que alguns dos factores são únicos para cada observador, concluímos que a quantidade máxima de estrelas que conseguimos, de facto, ver à vista desarmada deverá estar entre as 2000 e as 4000.

Factores que afectam a observação

Lugar geográfico do observador

Um dos factores é aquele que está relacionado com o lugar geográfico ocupado pelo observador ou pela observadora. E como, fisicamente, só conseguimos estar num lugar de cada vez, só conseguimos ver as estrelas que são visíveis a partir desse lugar. Por outras palavras, quando estamos na superfície terrestre, possuímos um campo de visão limitado. Alguém que esteja no norte da Noruega vê estrelas que não são visíveis por outro alguém que esteja algures na Antártida. E esse alguém que está na Antártida vê estrelas que não são visíveis no norte da Noruega. Cada um destes observadores vê apenas uma parte daquilo que chamamos de “céu”. Ninguém consegue ver, em simultâneo, a totalidade do céu ou, melhor dizendo, a totalidade de ambos os hemisférios celestes, o norte e o sul. E se as tais cerca de 9000 estrelas que possuem uma magnitude aparente inferior a 6,5 são contabilizadas tendo em conta ambos hemisférios, ver apenas uma parte do céu implica que não nos seja possível ver a parte restante.

As estrelas só são visíveis durante a noite

É uma tarefa ingrata observar estrelas enquanto o Sol brilha (ainda que o Sol seja uma estrela). Não há estrelas para ver durante o dia (além do Sol). Temos, portanto, de esperar pela noite. E, grosso modo, apenas conseguimos ver metade do cenário estelar, aquela que se preenche pelo período que vai desde o anoitecer até ao amanhecer. A outra metade está inundada pela luz solar que nos impede de ver as estrelas (que continuam a estar lá).

Altura do ano

Muitas das estrelas que vemos durante o Verão não são as mesmas que vemos durante o Inverno. Isto acontece porque a Terra orbita o Sol e isso faz com que olhemos para diferentes direcções do Universo. E isto quer dizer que, mesmo durante cada noite do ano, vemos apenas uma parte da totalidade do cenário estelar. É como se tivéssemos uma cortina que, ao longo do ano, nos vai ocultado a outra parte. Por exemplo, em Portugal, vemos as estrelas que formam a constelação de Orion no Inverno mas não as conseguimos ver nas noites de Verão.

Idade de quem observa

A idade de quem observa é um aspecto a ter em conta. Em geral, a visão degrada-se à medida que vamos avançando na idade.

Estrelas variáveis

E há ainda um outro factor que vale a pena ser abordado. São as estrelas variáveis.

Uma estrela variável é uma estrela que varia de brilho ao longo do tempo. Às vezes está mais brilhante e outras vezes está menos brilhante. Há razões que provocam esta variação de luminosidade. No texto “Observando estrelas variáveis” abordei este tema de forma um pouco mais explicativa.

Há estrelas variáveis que, quando estão mais brilhantes, são visíveis à vista desarmada e que, quando estão menos brilhantes, só é possível vê-las com binóculos ou com um telescópio. A R Scuti é um desses casos. Quando está no seu máximo (isto é, quando está na fase mais mais brilhante) atinge as 4,5 magnitudes, mas cai para as 8,8 no mínimo.

Há imensas estrelas variáveis, apesar de serem poucas aquelas que se tornam visíveis à vista desarmada durante a sua fase mais brilhante. Mas optei por incluí-las nesta lista porque vão alterando a quantidade de estrelas que conseguimos ver à vista desarmada numa determinada altura.

Outros factores

Todos os factores que acima abordei contribuem para reduzir a quantidade de estrelas que conseguimos ver à vista desarmada e em simultâneo. E passámos do total inicial de cerca de 9000 (que são as estrelas cuja magnitude aparente é inferior a 6,5) para uma quantidade estimada entre as 2000 e as 4000. De todas as estrelas da Via Láctea (e também do Universo) conseguimos apenas ver uma ínfima parte à vista desarmada.

E se juntarmos os restantes factores, reduzimos ainda mais a quantidade porque nenhum deles permite boas condições de observação.

Lua

Se a Lua estiver Cheia ou quase Cheia, há menos estrelas visíveis devido à quantidade de luz reflectida pelo nosso satélite natural. A melhor altura para observar acontece durante a Lua Nova ou nas noites que lhe antecedem e sucedem.

Condições atmosféricas

Haver humidade no ar dificulta a observação de estrelas. E as noites frias tendem a ser melhores do que as noites quentes. Conseguimos ver mais estrelas quando as noites são frias e secas.

Poluição luminosa

E a poluição luminosa, sempre tão presente nas cidades, limita enormemente a possibilidade de vermos estrelas. Alguém que more numa cidade vê muito menos estrelas do que alguém que more num lugar com pouca ou nenhuma iluminação artificial.

Conclusão

A Terra gira sobre o seu próprio eixo e, como tal, as estrelas (como acontece com o Sol, com a Lua e com os planetas) também nascem e põem-se. Portanto, o cenário estelar é como um ecrã que vai passando e nunca está parado e, assim, as estrelas estão apenas de passagem pelo céu. Excepto as circumpolares, estando essas sempre visíveis. Ou seja, até na mesma noite, varia a quantidade de estrelas que conseguimos ver à vista desarmada.

Além de todos estes factores, há ainda um aspecto importante: a adaptação que a nossa vista precisa de ter em relação à escuridão. Se estivermos numa sala iluminada, se lhe apagarmos a luz e se, logo de seguida, observarmos pela janela o céu da noite, não conseguiremos ver em perfeitas condições. Iremos conseguir ver estrelas, mas não todas as que possuem uma magnitude aparente inferior a 6,5.

A nossa vista precisa de uns 20 ou 30 minutos para se adaptar à escuridão da noite. Só depois desse tempo em que aguardamos num ambiente escuro é que estamos prontos para observar as estrelas. Portanto, o correcto a fazer será apagar a luz da sala, não olhar para ecrãs de telemóvel, de computador, de televisão (e todos os outros) e, simplesmente, aguardar.

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