Os smartphones, as mesas e os humanos

Lembro-me de um tempo em que os humanos iam ao café, de manhã, à tarde ou à noite, sentavam-se a uma mesa e conversavam. Conversam sobre as coisas que tinham acontecido nesse dia, sobre um acontecimento que tinha ocorrido do outro lado do mundo, sobre um assunto mais privado ou sobre qualquer outra tema. Mas íamos ao café e conversávamos uns com os outros, usando o som da nossa voz.

Actualmente os humanos continuam a ir ao café e ocupam, na mesma, uma mesa e continuamos a conversar uns com os outros, utilizando a nossa voz. Mas algo mudou. Actualmente há um prolongamento do nosso corpo que não havia há uns vinte anos. E alguns humanos parecem viver no interior desse prolongamento. Uma coisa que recebe o nome de “smartphone”.

A ferramenta que recebeu esse nome é, sem dúvida, uma coisa útil e pode até facilitar a nossa vida. Mas a utilização que alguns humanos fazem dele perturba-me um pouco.

Considero-me uma pessoa aberta às novas tecnologias, apesar de não me dedicar muito ao assunto. E sei bem que a espécie humana está permanentemente em mutação. Actualmente temos o aspecto e as características que temos e, daqui a uns milhares de anos, seremos diferentes. E, no futuro, poderemos existir apenas como forma mental. E eu posso considerar que o surgimento das tecnologias que criaram o smartphone, a Internet e a Inteligência Artificial são um passo importante para uma forma mental que poderemos ser nesse futuro. E, na minha opinião, o surgimento de tais tecnologias enquadra-se numa mudança gradual rumo a essa forma mental em que nos poderemos vir a tornar. Começa numa geração, passa para a seguinte e por aí continua.

E até aqui não encontro problemas, além dos provocados pela extracção do lítio necessário para o fabrico das baterias e que tem um impacto profundamente negativo no meio ambiente e na biodiversidade.

O smartphone é apenas uma ferramenta que tem utilidade e que tem consequências, como qualquer outra ferramenta, como a televisão, a rádio ou a Internet. Mas, como disse acima, algo me perturba no uso do smartphone. E esse algo está relacionado com o uso que alguns humanos fazem dele.

Há uns quantos humanos que mergulharam, à falta de melhor palavra, para o interior dos seus smartphones. Há uns quantos que estão viciados no seu uso. E temos, actualmente, um cenário que, volta e meia, encontramos e que mostra um grupo de humanos sentados a uma mesma mesa de café, estando, cada um, focado no seu próprio smartphone e em silêncio absoluto. Temos também a variante que mostra um casal, suponhamos o namorado e a namorada, na mesma no café e que, em vez de conversarem através de palavras vindas da boca de cada um, estão entretidos com o seu próprio smartphone, mantendo-se em silêncio verbal. Volta e meia, um deles refere um qualquer assunto relacionado com algo que acabou de ver na Internet e o outro comenta com duas ou três frases e, depois, novamente, o silêncio. Para que foram eles ao café? Poderiam ter feito o mesmo, ficando em casa. Ou, até, porque é que estão juntos, numa relação amorosa, esses dois humanos? E o grupo que ocupa, em silêncio, uma mesa: podiam manter o mesmo tipo de convívio se tivessem ficado cada um na sua casa.

Estarão esses humanos que vivem dentro do smartphone tão descontentes com a vida que estão a ter que sentem necessidade de mergulhar para o seu interior? Estarão eles, simplesmente, fascinados com a quantidade de escolhas, de oportunidades e de mundos que existem num objecto tão pequeno?

Considero a comunicação como algo de essencial numa relação, seja ela de namoro, de amizade ou de qualquer outro tipo. E sendo a espécie humana uma espécie gregária, mais importância poderá ter a comunicação. Não que a comunicação não seja importante para as espécies que não são gregárias. No entanto, o problema é a anulação da comunicação verbal bilateral e multilateral que alguns humanos fazem entre si.

E pegando no ponto que assinalei uns tantos parágrafos acima, não me espantaria se a espécie humana se tornasse, no futuro, uma forma mental, excluindo-se da forma física. Mas, na mesma, continuaríamos, provavelmente, a precisar de comunicar uns com os outros. Continuaríamos, creio eu, a precisar de abrir e manter canais de comunicação entre os indivíduos, canais esses que, muito provavelmente, serão mentais.

Serão esses que preferem estar encerrados no interior do seu próprio smartphone os precursores de uma espécie pós-humana? E estarão eles a criar as bases de canais mentais de comunicação? Ou serão, simplesmente, gente que se está a anular a si própria?

Este texto que desenvolvo tem origem na observação que vou fazendo das coisas mas também de um determinado evento. Há umas semanas (contando a partir da data em que escrevi este escrito) fui a um supermercado para fazer umas compras que precisava. Antes, porém, bebi um café, ocupando uma das mesas. Estava eu a saboreá-lo quando, diante de mim, passou uma mulher, empurrando um carrinho de bebé. Presumi que fosse a mãe e o seu filho, uma criança que teria, talvez, um ano de idade. Essa mãe segurava um smartphone cuja câmara estava ligada e estava orientada no sentido de nos filmarmos ou fotografarmos a nós próprios. A vulgar selfie. A mãe segurava o smartphone, virando-o para a sua cria de maneira a que a criança fosse o centro das atenções da câmara, enquanto continuava a empurrar o carrinho. No entanto, o filho não dava a mínima importância ao facto apresentado. A criança preferia olhar para o lado oposto, dando atenção àquilo que ia surgindo no cenário corrente que ia avançando, impulsionado pela força da mãe, e ignorando por completo aquilo que estava a aparecer na imagem do smartphone e que era ela própria ou, melhor dizendo, era a parte de trás da sua própria cabeça. E apesar da cria não estar a ligar a mínima importância ao facto de ter uma câmara virada para si e da sua nuca e regiões adjacentes estarem a aparecer na imagem apresentada, a mãe sorria de alegria, numa verdade completamente desfasada e alheada da realidade, entendendo ela que a sua descendência estava radiante por aparecer na imagem. E sorria e continuou a sorrir por diversos metros adiante, até eu perder de vista aquela dupla exótica constituída por mãe e filho.

Estarão alguns humanos a ficar completamente alheados da realidade por via do uso do smartphone? Estarão esses humanos tão desfasados da realidade que nem percebem a realidade que se apresenta diante dos seus olhos?

Ou fui eu que não entendi o fenómeno e o objectivo da mãe não era o de mostrar a parte de trás da cabeça do filho ao próprio filho mas sim gravar um vídeo da criança, enquanto a cria se deleitava com a paisagem corrente.

Mas, mesmo que a mãe estivesse apenas a gravar o filho para depois, daqui a algum tempo, quando ele for um pouco mais crescido, mostrar-lhe o vídeo, estou em crer que alguns humanos estão a ficar alheados da realidade física devido ao uso excessivo que fazem do smartphone. Ou esse alheamento poderá fazer parte do percurso em direcção ao futuro.

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