Como encontrar a Estrela Polar

A Estrela Polar (do latim Stella Polaris) não é a estrela mais brilhante do céu nocturno. Não está, sequer, entre as quarenta mais brilhantes. Mas se a soubermos identificar, rapidamente descobrimos para que direcção fica o Norte. De facto, se lhe estivermos virados de frente, ficamos com o Pólo Norte terrestre diante de nós. E, portanto, para a nossa direita fica o Este, para a esquerda fica o Oeste e, para trás, está o Sul.

Porém, apenas conseguimos ver a Estrela Polar se estivermos no hemisfério norte da Terra. Se, porventura, estivermos perdidos algures num deserto australiano, sem bússola, escusamos de procurar pela Estrela Polar porque não é observável em latitudes situadas abaixo do equador terrestre. Mais ou menos. Conseguimos vê-la se estivermos ligeiramente abaixo do equador mas não é a melhor das localizações. Nessas latitudes, a Estrela Polar surge demasiado perto da linha do horizonte e isso dificulta a visibilidade. Portanto, alguém que se perca num deserto australiano e se tenha esquecido de trazer uma bússola, terá de fazer fazer uso de outras estrelas que indicam o Pólo Sul terrestre. Isto, se viajar de noite, claro. Se viajar de dia, pode orientar-se pelo Sol. Mas já estou a entrar em assuntos que me fazem distanciar do tema deste escrito.

Ora, voltando à Estrela Polar. Como podemos, então, encontrá-la?

A melhor maneira é, primeiro, localizar a Ursa Maior, uma constelação muito fácil de identificar. Claro que ajuda se tivermos algum conhecimento do céu nocturno e se soubermos identificar algumas constelações.

A constelação que vemos abaixo é a Ursa Maior. Na primeira imagem, uma foto e, na segunda, uma ilustração simplificada da constelação.

Não são apenas estas sete estrelas que fazem parte da Ursa Maior (até porque algumas destas sete são binárias). Há mais estrelas nesta constelação, muitas mais. Mas estas são aquelas que saltam à vista. Aliás, este aspecto acontece com todas as oitenta e oito constelações. Cada uma delas possui aquelas estrelas mais conhecidas, podemos dizer assim, mas há milhares e milhares de outras estrelas que habitam a área geográfica celeste que corresponde à constelação em causa. Adiante.

Após identificarmos a Ursa Maior, passamos aos próximos passos, que surgem condensados na imagem seguinte. Localizamos as duas estrelas indicadas pelas setas brancas e, depois, traçamos uma linha imaginária. O comprimento dessa linha é de cerca de cinco vezes a distância entre uma estrela e a outra. No final, está a Estrela Polar. É a estrela mais brilhante que aí estiver.

Se houver alguma dificuldade em encontrar a Estrela Polar, podemos servir-nos de um ponto de apoio, que é a constelação de Cassiopeia. E a Estrela Polar fica mais ou menos a meio caminho entre a Ursa Maior e Cassiopeia (conforme a imagem abaixo).

A Estrela Polar faz parte da constelação da Ursa Menor. As estrelas que a constituem não são particularmente brilhantes mas as três assinaladas pelas setas amarelas vêem-se bem. Claro que depende sempre de onde estamos. Se estivermos num lugar com uma imensa poluição luminosa, estrelas é coisa que, muito provavelmente, não iremos ver.

Olhemos agora de forma um pouco mais aprofundada para a Estrela Polar.

Muitas estrelas formam sistemas binários ou múltiplos. São sistemas de estrelas que estão ligadas gravitacionalmente umas às outras (conforme o exemplo abaixo), e a Estrela Polar não é excepção. Ela forma um sistema triplo em que duas das estrelas estão muito próximas uma da outra (a Polaris Aa é aquela que conhecemos por Estrela Polar) e a terceira está mais afastada.

À vista desarmada só conseguimos ver a Polaris Aa. Para observarmos a Polaris B precisamos de um telescópio e para conseguirmos ver a Polaris Ab, precisamos de um grande telescópio (como o Hubble, por exemplo).

A Estrela Polar é uma supergigante, um tipo de estrela. As estrelas supergigantes são enormes e extremamente brilhantes e muitas delas estão na fase final da sua evolução. Para termos uma ideia, a Estrela Polar é duas mil vezes mais brilhante do que o Sol e quarenta e seis vezes maior. Mas enquanto o Sol está a oito minutos-luz de distância da Terra, a Estrela Polar está a cerca de 440 anos-luz. Para as leitoras e para os leitores mais distraídos, informo que 1 ano-luz é a distância que a luz percorre num ano. Traduzindo para quilómetros, encontramos a seguinte equivalência: 1 ano-luz = 9 460 730 472 580 km.

Se a Estrela Polar estivesse à mesma distância do Sol ou até um pouco mais, (e quando digo “um pouco mais” é mesmo “bastante mais”), a Terra já estaria incinerada há muito tempo.

Em toda esta narrativa que afirma que a Estrela Polar indica o Norte, há um aspecto que convém lembrar. E esse aspecto diz que nem sempre a Estrela Polar indicou o Norte. E a culpada de tal coisa dá pelo nome de “precessão”.

A Terra, além de orbitar o Sol (num movimento que se chama “translação”) e de girar sobre si própria (num outro movimento ao qual damos o nome de “rotação”), possui um terceiro movimento: a precessão.

Imaginemos um pião a girar. Enquanto o faz, o seu topo vai oscilando, vai apontando para diferentes pontos no espaço acima de si. Esta oscilação também acontece na Terra ao longo do tempo (ao longo de um período de 26 000, para ser mais preciso). E tal implica que o Pólo Norte terrestre (e, por arrasto, o Pólo Sul) vão apontando para diferentes lugares do Universo. Lugares esses onde existem estrelas.

Actualmente, se prolongarmos o eixo vertical da Terra, ele vai indicar um lugar próximo da Estrela Polar e é por isso que, se nos virarmos de frente para ela, estamos virados para o Norte. Mas se recuarmos uns 5000 anos, a estrela que indicava o Norte era outra. Era a Alfa da constelação do Dragão. E daqui a cerca de 2000 anos, a estrela que indicará o Norte será a Gama da constelação do Cefeu. Menciono apenas três exemplos mas há muitas outras estrelas que já tiveram ou que terão a oportunidade de indicar o Norte. Tudo depende para onde aponta o eixo vertical do planeta Terra.

Resumidamente, o movimento de precessão faz com que a estrela que indica o Norte vá variando ao longo do tempo. Por enquanto, é à Estrela Polar (a Alfa da Ursa Menor) que cabe essa função. Mas note-se que não é uma indicação exacta. É ligeiramente desviada, mas suficientemente próxima para sabermos que o Norte está naquela direcção.

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