Benefícios do teletrabalho

Sair de casa, ir para o emprego, estar no emprego, regressar a casa. No dia seguinte, sair de casa, ir para o emprego, estar no emprego, regressar a casa. No outro dia seguinte, sair de casa, ir para o emprego… E já se percebeu onde quero chegar. Mas há uns fins-de-semana pelo meio.

Claro que nem todos os humanos preferem estar em regime de teletrabalho. Há muitos que preferem ir fisicamente para o local onde exercem a sua profissão. Mas não pretendo meter-me nos assuntos preferenciais de cada um. Vou tentar, em vez disso, seguir uma linha relacionada com o impacto que o teletrabalho possui no meio ambiente e irei também abordar outros pontos que me parecem importantes no que respeita à não necessidade de deslocação diária para o local onde se exerce a profissão.

Definição de teletrabalho

Comecemos por uma definição. O teletrabalho é a realização de uma actividade profissional fora do espaço físico da entidade empregadora e faz uso de tecnologias como a Internet e o telefone, que permitem que trabalhemos em casa (ou noutro local à nossa escolha), possibilitando a execução de tarefas relacionadas com a profissão, mantendo o contacto com a entidade empregadora, com os colegas e com os clientes. Isto significa que não precisamos de nos deslocar diariamente para o local de emprego, podendo executar as mesmas tarefas profissionais a partir de casa.

O conceito de teletrabalho como o conhecemos actualmente tem algumas décadas de existência mas foi durante a pandemia de 2020 que se tornou um sistema preponderante um pouco por todo o mundo. Mas, após esses tempos, a maioria dos indivíduos viu-se a ter de regressar fisicamente ao local de emprego, largando o regime de teletrabalho.

Uma sociedade moldada

Quando falamos em teletrabalho, temos de perceber que nem todas as profissões poderão ser passíveis de serem exercidas nesses termos. Há várias que precisam mesmo da presença física de alguém no local. São profissões que vão desde os serviços de limpeza até à saúde, passando pelos desportos, entre várias outras. Talvez no futuro seja possível que todas as profissões possam ser em regime de teletrabalho mas, por enquanto, ainda não é possível.

Apesar de, actualmente, haver uma percentagem da população que está em teletrabalho, a maioria dos seres humanos tem de fazer a sua deslocação diária para o emprego. Este é um retrato que se repete um pouco por todo o mundo, em todos os continentes. Há a viagem de ida (de manhã, suponhamos) para o emprego e, ao final da tarde, há a viagem de regresso a casa.

O simples facto de haver necessidade de ir fisicamente para o emprego molda a sociedade humana porque há uma série de factores que são criados a partir dessa necessidade. Por exemplo, a área destinada aos escritórios de uma empresa precisa de ser mais ampla para albergar mais funcionários (o que é o mesmo que dizer que essa mesma empresa precisa de ocupar mais espaço físico).

Outro exemplo serão as viaturas em circulação. Uma parte considerável das famílias possui, pelo menos, um automóvel e, muitas vezes, cada elemento do casal tem o seu carro e até o filho ou filha poderá ter o seu. E, todos os dias, cada um segue na sua própria viatura para o emprego (ou para a universidade). Se o regime de teletrabalho fosse aplicado em grande escala, será que esta ou outras famílias iriam necessitar de ter tantos automóveis? Ou será que bastaria um único veículo para as deslocações ocasionais para fazer as compras, para ir de férias ou para dar uma volta?

E havendo menos veículos em circulação, as horas de ponta seriam, provavelmente, inexistentes, o que significa que as estradas não precisariam de ser tão largas (como acontece com muitas auto-estradas).

Há, obviamente, vários outros factores que se criam a partir da necessidade de ir e de estar fisicamente no emprego mas não pretendo alongar-me nesse aspecto. Vamos, então, abordar os benefícios do teletrabalho.

Benefícios do regime de teletrabalho

Como se espera, o regime de teletrabalho traz vários benefícios, não apenas para o meio ambiente mas também para outros aspectos.

1. Redução da emissão de gases com efeito de estufa

Como o próprio nome indica, os gases com efeito de estufa são os responsáveis pelo efeito de estufa que existe na Terra. É um fenómeno natural, não fomos nós, seres humanos que criámos o efeito de estufa. E uma maior concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera terrestre leva ao aquecimento global. Esse pode ter causas naturais mas aquele que estamos a atravessar actualmente tem origem antropogénica. Somos nós, com os nossos estilos de vida, que o estamos a provocar devido à quantidade de gases com efeito de estufa que estamos a enviar para a nossa atmosfera, a partir de causas como os meios de transporte, a desflorestação e uso de equipamentos de ar condicionado, entre outras.

A maioria dos veículos funciona a gasolina ou a gasóleo e, ao circularem nas estradas, emitem gases com efeito de estufa. Os veículos eléctricos que, gradualmente, parecem estar a substituir os de combustão interna, não emitem esses gases quando circulam nas estradas, apesar de o fazerem durante a sua fase de produção e até no momento em que as suas baterias são carregadas (se a electricidade for produzida a partir de combustíveis fósseis).

Quem não está em regime de teletrabalho, precisa de fazer, pelo menos, duas viagens diárias: a primeira, de ida para o local onde exerce a profissão e, a segunda, de regresso a casa. E apesar de muitos utilizarem a sua própria viatura, há também uma grande percentagem da população que faz uso de transportes públicos. Ou seja, quanto mais indivíduos tiverem necessidade de se deslocarem fisicamente para o emprego, maior é a quantidade de meios de transporte em circulação.

Se o regime de teletrabalho for aplicado em larga escala, haverá menos veículos em circulação (sejam eles privados ou públicos) porque deixa de haver necessidade da massiva deslocação física de casa para o emprego e posterior regresso. E havendo menos veículos, dá-se a redução da emissão de gases com efeito de estufa para a atmosfera.

2. Menor necessidade de extrair matérias-primas

Uma menor utilização dos meios de transporte, poderá implicar a necessidade de redução da sua produção porque a procura diminui. E a menos que os automóveis, os autocarros e os comboios passem a ter um prazo de validade muito curto implicando, por isso, uma maior frequência de compra por parte dos consumidores, se o seu prazo de validade se mantiver nos níveis que conhecemos, a venda de meios de transporte irá diminuir. E para que os fabricantes evitem perdas, necessitam de adaptar a quantidade produzida àquela que se prevê vender.

Se produzirmos menos, menor será a necessidade de consumirmos as matérias-primas necessárias para o seu fabrico, cuja extracção provoca efeitos desastrosos no ambiente e na biodiversidade. Por exemplo, os plásticos utilizados no interior dos automóveis, e também os pneus, incluem combustíveis fósseis na sua composição. E o fabrico das baterias dos veículos eléctricos precisa de lítio e de cobalto. Se tivermos menos necessidade de extrair as matérias-primas iremos provocar uma menor degradação ou destruição dos ecossistemas e respectivas espécies.

Como o regime de teletrabalho implica um menor uso de meios de transporte, haverá também uma menor necessidade de extrair combustíveis fósseis para produzir a gasolina, o gasóleo e a electricidade. Quanto mais utilizarmos o automóvel (ou o autocarro) mais temos necessidade de visitar o posto de combustível ou de carregar as suas baterias.

No que respeita à electricidade, para a sua produção têm vindo a ser implementadas fontes mais limpas como, por exemplo, a energia eólica ou a solar. Mais para diante neste texto irei, novamente, abordar o tema da electricidade.

3. Menor poluição sonora

A poluição sonora é algo que está sempre presente nas áreas urbanas. Há sempre (ou quase sempre) meios de transporte em movimento, sejam automóveis, motas, autocarros, aviões, comboios e outros. Grande parte da poluição sonora citadina é originada pelo trânsito automóvel, algo que é particularmente audível nas horas de maior tráfego (que correspondem com as viagens de ida e volta para os empregos). Claro que também usamos automóveis e transportes públicos para irmos ao supermercado, ao cinema ou visitar museus, mas muito do trânsito que existe está relacionado com as nossas vidas profissionais.

Se não tivermos necessidade de estar fisicamente presentes no emprego, o trânsito reduz-se substancialmente. E menos trânsito significa menos barulho. Por outras palavras, a poluição sonora torna-se inexistente ou, pelo menos, diminui consideravelmente de nível.

A partir daqui obtemos um benefício que nos transporta para um melhor bem-estar. A poluição sonora provoca alterações comportamentais e cria problemas de saúde em diversas espécies, incluindo a humana. E se não estivermos permanentemente expostos à poluição sonora, a causa dessas alterações e problemas desaparecesse.

4. Não gastar tempo nas deslocações

Podemos dizer que a viagem diária de deslocação de casa para o emprego demora vinte ou trinta minutos e, em alguns casos, uma hora ou mais. À ida, acrescenta-se o regresso. Será, portanto, o dobro desse valor. Diria um total diário que se situa entre quarenta minutos e duas horas. Claro que esta duração sofre variações significativas mediante o local onde se reside. A quantidade de população humana, o fluir do trânsito e a existência de uma boa rede de transportes públicos são factores a ter em conta para avaliar este aspecto e, obviamente, o cenário que existe em Lisboa é diferente do que existe em Nova Deli, em Nova York ou no Cairo.

Independentemente do tempo que se demora nas viagens de ida e volta para o emprego, é um facto que há tempo gasto. E ao tempo gasto na viagem, acrescenta-se o necessário para que o indivíduo se apronte para sair. Quando estamos a trabalhar em casa, podemos, em geral, fazê-lo de forma informal no que respeita à roupa que usamos, algo que pode não acontecer se trabalharmos fora de casa. Portanto, podemos acrescentar mais uns trinta minutos ao tempo da viagem de ida e volta.

Mas estando em regime de teletrabalho, não temos necessidade de gastar esse tempo e poupamos, por assim dizer, uma ou duas horas todos os dias. Com esse tempo que ganhamos, podemos ter uma vida mais descontraída e até dedicar-nos a alguma actividade que temos vindo a adiar por falta de tempo disponível.

5. A electricidade

A electricidade move o nosso mundo. É como se nada acontecesse se não tivermos acesso à electricidade. Estamos habituados a ela e tornámo-nos dependentes dela. Se a electricidade desaparecesse, a nossa sociedade pararia.

E claro que nos nossos empregos também precisamos de electricidade, mesmo que trabalhemos em casa. Estando nós em teletrabalho, é natural que o consumo de electricidade da nossa casa aumente e, por isso, é possível que tenhamos de pagar um pouco mais. Mas, em simultâneo, podemos reduzir substancialmente o valor que damos para comprar gasolina, gasóleo ou o passe dos transportes públicos e também devido à menor necessidade de carregar as baterias do automóvel eléctrico. Portanto, quer-me parecer que neste aspecto financeiro não haverá diferenças significativas para quem está em teletrabalho.

Conclusão

Actualmente temos a tecnologia que nos permite estar em teletrabalho. Temos Internet, temos telefone e temos, quando for caso disso, a videoconferência. Este nosso mundo actual é um mundo diferente daquele que tínhamos em meados do século XX, quando não éramos possuidores dessas ferramentas (excepto o telefone).

A nossa sociedade está numa transformação constante. E à medida que as transformações vão ocorrendo, vamo-nos adaptando àquilo que nos está a ser oferecido. Antes do advento da Internet, o mundo profissional era diferente e as nossas vidas eram também diferentes. E nós estávamos adaptados a esse mundo sem Internet.

E, possivelmente, com o teletrabalho é também uma questão de adaptação. De adaptação das entidades empregadoras e de nós próprios enquanto indivíduos. Quando apareceu a pandemia de 2020, o mundo foi como que apanhado de surpresa e, repentinamente, a maior parte de nós teve de ficar em casa e trabalhar com as condições que existiam (que eram, obviamente, as domésticas e não as profissionais). Mas havendo uma preparação e predisposição para o teletrabalho, as coisas não precisam de ser feitas dessa forma repentina.

É necessário que haja também vontade das entidades empregadoras para implementarem o regime de teletrabalho. Existem já várias que optaram por um sistema híbrido, no qual, por exemplo, um dia por semana o trabalho é presencial e, nos outros quatro dias, opta-se pelo sistema de teletrabalho. Outras entidades, terão já todos os seus funcionários em teletrabalho.

Obviamente que a existência do regime de teletrabalho em larga escala irá fazer repensar e remodelar toda a nossa estrutura de vida que assenta na deslocação diária de ida para o emprego e regresso a casa. Provavelmente, muitos escritórios dos edifícios empresariais ficarão vazios mas poderão ser rentabilizados de outra forma. Os próprios produtores, fabricantes e distribuidores de diferentes sectores da economia terão de se adaptar às necessidades requeridas pelo teletrabalho. Haverá, provavelmente, profissões que se irão extinguir, enquanto outras poderão ter de diminuir significativamente a quantidade de indivíduos que a ela se dedicam. E haverá profissões novas que irão surgir.

Provavelmente estamos a dar agora os primeiros passos mais assertivos numa direcção mais favorável à existência de teletrabalho.

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