A sobrepopulação humana é um problema para o meio ambiente e para a biodiversidade

A sobrepopulação humana é um tema que dificilmente surge quando se abordam os problemas relacionados com o impacto que a nossa espécie tem no meio ambiente e na biodiversidade. De facto, falamos, com muita ou com pouca frequência, do aquecimento global, da poluição plástica, da desflorestação e da perda de biodiversidade mas a sobrepopulação humana parece ficar esquecida, ignorada ou menosprezada. Porém, este factor tem um enorme peso em todos os outros problemas ambientais que existem na Terra.

O aumento da população humana

A nossa espécie vai habitando o planeta há uns quantos milhares de anos mas nem sempre fomos tantos como somos agora. O aumento da população humana aconteceu lentamente ao longo da História e foi apenas nos últimos trezentos anos, mais coisa menos coisa, que o cenário mudou. No ano 1700 éramos apenas uns seiscentos milhões de indivíduos em todo o mundo mas, em 2022, ultrapassámos os oito mil milhões de seres humanos a habitar a Terra. Em três séculos, a população humana aumentou em cerca de sete mil e quatrocentos milhões de indivíduos.

Há várias causas que motivaram este rápido crescimento populacional. Os avanços da medicina e a melhoria dos cuidados sanitários são duas delas, que são, por si só, factores positivos e benéficos para a nossa espécie que levam, por exemplo, ao aumento da esperança de vida e à diminuição da taxa de mortalidade dos recém-nascidos.

Mas há também factores importantes que contribuem para o crescimento populacional, alguns a um nível mais global, enquanto outros com maior incidência em determinadas regiões do mundo ou em determinadas sociedades. São factores como o uso insuficiente de métodos contraceptivos, as pressões culturais, sociais ou religiosas que favorecem os nascimentos em quantidade, os poucos direitos que as mulheres têm em algumas sociedades que as impedem de decidir sobre se querem ou não querem ser mães, as taxas de mortalidade infantil elevadas e os fracos recursos económicos das famílias que, não apenas, lhes limitam o acesso à educação e aos cuidados de saúde mas também a uma maior propensão para terem mais filhos porque cada filho é, potencialmente, mais uma fonte de rendimento.

As projecções das Nações Unidas indicam que a população humana irá continuar a aumentar até ao final do século XXI, altura em que será constituída por cerca de dez mil e quatrocentos milhões de indivíduos (isto num cenário de fertilidade média).

A irrelevância do lugar onde residimos

As trocas comerciais e a necessidade de materiais que vêm de longe são características que estão presentes na nossa espécie desde há muito tempo. Porém, quando comparamos a época actual com aquela que existia há umas centenas ou há uns milhares de anos, deparamo-nos rapidamente com duas diferenças: actualmente somos em muito maior quantidade e temos tecnologias que nos permitem viajar mais rapidamente. Se antes demorávamos semanas para atravessar o Atlântico e meses para atravessar a Eurásia, actualmente fazemos exactamente o mesmo percurso em poucas horas. E se antes éramos quinhentos milhões ou oitocentos milhões, agora somos mais de oito mil milhões.

A população humana não está uniformemente distribuída pelo planeta. Há regiões que possuem uma elevada densidade populacional, enquanto noutras, os seres humanos formam uma visão rara. Além disso, cada região, cada cultura e cada sociedade possui hábitos de consumo diferentes. Apesar disso, devido às importações e exportações, o lugar onde residimos tem pouca ou nenhuma importância relativamente ao impacto que temos no meio ambiente e na biodiversidade. Por exemplo, nós aqui na Europa estamos a contribuir para a eliminação de florestas do Sudeste Asiático porque muitos dos produtos que utilizamos incluem óleo de palma na sua composição. E este material é uma das causas que contribui para a desflorestação que desgraça essa região do mundo e que, em simultâneo, está a empurrar diversas espécies para a extinção.

Para uma sociedade humana global

Cada um de nós possui necessidades básicas como a alimentação, a casa onde habitamos e até a roupa para vestirmos (dependendo do clima e da cultura, claro). Mas uma parte considerável da população humana utiliza mais do que essas coisas essenciais (chamemos-lhes assim). E os smartphones são um bom exemplo disso. É inegável a utilidade que os smartphones têm na nossa vida, seja a nível profissional, seja a nível de entretenimento ou em qualquer outro aspecto. É uma ferramenta que se tornou parte integrante da nossa sociedade e até uma extensão do nosso próprio ser. E tornaram-se um produto essencial para muitos de nós.

Ora, além de alimento, de água, de casa, de roupa e dos smartphones, há muitos outros produtos e materiais que se tornaram de uso comum na nossa sociedade: plásticos, detergentes, papel, electricidade, gasolina, alumínio, ouro, lítio, petróleo, automóveis, entre muitos outros. E nós precisamos de abastecer uma população mundial com todos estes produtos. Obviamente que existem diferenças significativas entre as diversas regiões do mundo e não podemos comparar os estilos de vida que existem nos Estados Unidos, na China ou na Austrália com os que existem no Burundi, no Butão ou em Tuvalu. Cada região possui uma realidade diferente que está dependente de vários factores internos e externos. Até mesmo dentro do mesmo país ou da mesma cidade existem realidades e estilos de vida diferentes.

Mas, apesar disso, há um factor importante. Quanto maior for a população (que é o mesmo que dizer quanto mais forem os consumidores), maior é a necessidade de produzir, extrair, distribuir e, muitas vezes, descartar. Produzir e abastecer dois mil milhões de seres humanos é um cenário completamente diferente daquele que se cria quando precisamos de produzir e abastecer oito mil milhões (é um esforço imensamente superior aquele que pedimos à Terra). E quanto maior for a necessidade de produzir, de extrair, de distribuir e, também, de descartar, mais danosas serão as consequências no ambiente e na biodiversidade.

Consequências da sobrepopulação humana para o meio ambiente e para a biodiversidade

Imaginemos um quadrado que mede cem metros em cada lado. Nesse quadrado vive um humano e diversos indivíduos de espécies de aves, de mamíferos, de répteis, de insectos, de peixes, de plantas e de outros. Todos esses seres vivos partilham o mesmo quadrado e os recursos alimentares e outros que aí existem são suficientes para todos. O humano que aí vive consegue obter tudo o que precisa sem prejudicar o meio ambiente e a biodiversidade. Tem a sua horta de onde colhe vegetais, as árvores que lhe dão madeira, o lago onde vai buscar água e um recanto onde vai recolher materiais engraçados a que ele chamou ouro, lítio e cobalto. Esse humano, que habita uma casa que ocupa um dos cantos do quadrado, consegue viver em harmonia com a Natureza neste mundo que partilha com outras espécies.

Imaginemos agora que, um dia, um segundo humano entra no quadrado. Este segundo tem as mesmas necessidades do primeiro. O quadrado começa a ser um pouco apertado para os dois mas ainda conseguem viver sem prejudicar a Natureza. O segundo precisa de conquistar um pouco de espaço à Natureza para construir a sua casa e, tal como o primeiro, também faz uso dos materiais engraçados que existem no tal recanto. A chegada deste segundo humano altera um pouco a harmonia que, anteriormente, existia no quadrado mas não é suficiente para provocar alterações prejudiciais. A biodiversidade (além da humana) que habita o quadrado não se ressente e continua a viver a sua vida sem problemas.

Passa-se mais algum tempo e eis que um terceiro humano entra no quadrado. Este terceiro não se interessa por ouro ou por lítio mas precisa de comer e de beber água. E a horta que, à justa, dava para dois, torna-se insuficiente para três e, por isso, é necessário aumentá-la. E têm de abater muitas das árvores para ganhar o espaço necessário para tal, armazenando a madeira que delas obtêm. As aves e os insectos que faziam dessas árvores a sua casa e o seu mundo, viram-se desalojados e desapareceram. Além disso, este terceiro humano precisa também da sua própria casa e encontra um espaço que lhe agrada. Para a erigir, precisa de remover plantas e tudo o que havia no local e, com isso, destruiu um ecossistema e reduziu a biodiversidade do quadrado.

O quarto humano entra no quadrado. O tamanho da horta não é suficiente para quatro e nem é possível aumentá-la porque isso significaria retirar o lago (tão necessário para a água). Por isso, os humanos juntam-se e inventam uma substância que permite aumentar a produtividade da horta. Essa substância revela-se tóxica para os insectos e para os mamíferos que habitavam nas imediações que, por isso, foram levados à extinção. Como os insectos formam uma parte essencial nos ecossistemas porque, entre outros aspectos, são alimento para muitas espécies de aves, essas espécies de aves extinguiram-se porque os insectos de que se alimentavam desapareceram. E também este quarto humano precisa da sua casa e decide que quer morar mesmo junto ao lago. É necessário remover terras e plantas e tudo o mais e, com isso, os ecossistemas que ali haviam ficaram degradados e a biodiversidade do lago ressentiu-se disso.

E entra o quinto humano. Este, além da comida e da água, quer ouro, lítio e cobalto e, por isso, decide dedicar-se em força à sua extracção usando, para tal, determinadas substâncias tóxicas que lhe facilitam o trabalho mas que contaminam o ambiente, atingindo a horta, o lago e mais alguma área. Substâncias essas que se revelam prejudiciais para diversas espécies, levando-as à extinção, e também para dois dos outros humanos, criando-lhes problemas de saúde.

O quadrado, que era suficiente para um humano e para vários indivíduos de outras espécies, tornou-se demasiado pequeno para cinco humanos. E isso teve como resultado a destruição do meio ambiente e a redução da biodiversidade.

Mudemos de escala e entremos no planeta Terra, um mundo que é também limitado em área.

1. Quanto maior for a área construída, menor é o espaço que sobra para os ecossistemas naturais

Quanto maior for a população humana, mais necessidade existe de expandirmos a área urbanizada porque precisamos de mais zonas residenciais, mais espaços comerciais e industriais e mais edifícios para diversas outras finalidades. Ou seja, as cidades vão crescendo e ficando cada vez maiores. Certamente, alguns de nós deverão lembrar-se que, há vinte ou trinta anos, a localidade A estava separada da localidade B e, actualmente, essas duas localidades estão unidas ou quase unidas. O final de uma confunde-se com o início da outra.

À medida que as cidades se vão expandindo em área, vão conquistando espaço à Natureza. As florestas vão sendo eliminadas, os pântanos vão sendo drenados e os prados vão sendo destruídos. As paisagens naturais vão sendo substituídas por edifícios, por estradas e por outras infraestruturas. Isto significa que quando aumentamos a zona urbanizada, estamos a destruir os ecossistemas e a fragmentar os habitats dos mamíferos, das aves, dos insectos e de outros seres vivos que viviam nesses ecossistemas. Estamos a retirar-lhes o território e as fontes de alimento e também a dificultar as condições necessárias para a sua reprodução. E isto acontece não apenas com a expansão urbana e respectivas zonas residenciais, comerciais e industriais, mas também com a expansão das zonas turísticas.

Segundo a IUCN Red List of Threatened Species, são milhares as espécies que estão ameaçadas de extinção devido à expansão urbana ou turística. Por exemplo, a iguana listada de Fiji (Brachylophus fasciatus), a arara azul pequena (Anodorhynchus glaucus), o gambá pigmeu da montanha (Burramys parvus), a rã arlequim (Atelopus varius) e muitas outras (Zubovskya banatica, Araucaria nemorosa, Mecistops cataphractus, Ateles hybridus, Rafetus swinhoei, etc).

Quanto maior for a área do planeta ocupada pelos nossos edifícios e infraestruturas, menor é o espaço que sobra para a Natureza. Se a população humana global diminuir consideravelmente, não teremos necessidade de construir em tanta quantidade. E isso permitirá devolver espaço à Natureza e às diversas espécies que, connosco, partilham o planeta.

2. Quanto maior for a população humana, mais são as bocas para alimentar

Os produtos alimentares constituem um elemento universal. Todos nós precisamos de comida. E como facilmente se percebe, a quantidade de alimentos necessária para cem indivíduos é diferente da necessária para mil, para um milhão ou para mil milhões. Quanto maior for a população, maior terá de ser a quantidade de alimentos produzidos.

Para fazermos frente às necessidades de mercado e também a factores de ordem económica e outros, muitos dos alimentos que encontramos na nossa mesa atravessaram métodos de produção prejudiciais para a biodiversidade. Muita da agricultura praticada pela nossa sociedade faz uso de pesticidas e de insecticidas que são uma importante causa para, actualmente, estarmos a empurrar para a extinção 40% das espécies de insectos, segundo um estudo publicado no Journal of Biological Conservation. Além disso, a criação de gado bovino para a produção de carne é uma importante causa da desflorestação que, em si, contribui para a extinção de espécies. E o cenário é igualmente mau nos oceanos, nos rios e nos lagos, havendo muitas espécies de peixes que caminham para a extinção devido à pesca e, em particular, à pesca excessiva.

Como todos nós temos de comer alguma coisa, traz pouca ou nenhuma relevância se somos essencialmente carnívoros, se somos flexitarianos, vegetarianos, vegans ou qualquer outra coisa. Quanto maior for a quantidade de indivíduos, maior terá de ser a quantidade de alimentos à disposição (seja peixe, soja, carne de vaca, fruta, trigo, insectos, fungos ou quaisquer outros). E temos ainda de incluir outro tipo de produtos alimentares que não podemos dizer que constituam uma refeição. São as bolachas, os gelados e os bolos, entre mais alguns. E tudo isto precisa de ser produzido (incluindo os ingredientes que os constituem), transportado e muitos são embalados em plástico descartável.

Claro que nem todos os seres humanos têm as mesmas necessidades alimentares e nem é comparável a dieta de uma tribo que vive na Amazónia com aquela que está à disposição em diversas cidades da América do Norte ou da Europa. Temos ainda de incluir a questão das perdas e dos desperdícios alimentares. Temos de ter em conta que, muito provavelmente, muitos seres humanos comerão mais quantidade do que aquela que precisam. E temos de nos lembrar que muitos produtos alimentares (e respectivos ingredientes) que temos à disposição neste nosso mundo “economicamente desenvolvido” (como alguns lhe chamam) foram importados de outra parte do mundo e que contribuíram para a destruição de ecossistemas e para a redução da biodiversidade nessa parte do mundo (através da desflorestação, da pesca excessiva e de outros factores).

Mas alimentar oito mil milhões de seres humanos não é a mesma coisa que alimentar dois ou três mil milhões. Será que uma comunidade constituída por oito mil milhões de seres humanos que siga em harmonia os ciclos da Natureza e que utilize apenas métodos que não sejam prejudiciais para o ambiente e para a biodiversidade para obter todos os alimentos que consome, conseguiria alimentar toda a sua população sem destruir ecossistemas e sem empurrar espécies para a extinção?

Quando falamos de uma comunidade desse tipo, podemos cair na tentação de recuarmos uns milénios, até um tempo em que o impacto humano no ambiente e na biodiversidade era muito inferior ao actual. Nessas épocas não havia poluição plástica mas já causávamos desflorestação, já caçávamos determinadas espécies até à exaustão e já lançávamos fumos tóxicos para a atmosfera devido à fundição de metais (como o chumbo, no caso dos romanos). E mesmo a indústria mineira está activa desde há milhares de anos.

Ora, viver implica ter algum impacto positivo ou negativo no ambiente (nem que seja residual). E haver alimentos à disposição é essencial para nos mantermos vivos. Quer isto dizer que, tudo aquilo que se produz (incluindo os alimentos) tem, de alguma maneira, impacto no ambiente e na biodiversidade. Era assim no passado e é assim no presente. E há dez mil anos éramos muito menos do que somos agora e não precisávamos de extrair e produzir tanto como agora. Actualmente, a Terra é um restaurante com oito mil milhões de clientes a almoçar em simultâneo. E isso tem custos.

Podemos imaginar-nos a regressar a esse tal tempo do passado mas a História foi avançando e as coisas foram mudando. As tecnologias foram surgindo, as pesquisas científicas foram sendo feitas e já vamos chegando a outros planetas. As nossas vidas actuais são diferentes daquelas que tínhamos há dez ou há vinte mil anos. Nós agora, no século XXI, além dos alimentos, temos automóveis, smartphones, computadores, electricidade, frigoríficos, aviões e uma série de outras coisas que fazem parte do nosso tempo. A nossa sociedade foi e é construída sobre esses produtos (incluindo os alimentares). Portanto, em vez de um restaurante que serve em simultâneo oito mil milhões de clientes, o planeta Terra é um centro comercial com supermercado e com restaurante e que contém oito mil milhões de clientes em simultâneo. Alguns desses clientes dedicam-se, sobretudo, ao restaurante e ao supermercado, mas outros dedicam-se também a muitos outros tipos de loja. E devido ao comércio global, através das importações e exportações, todos os produtos que se vendem nesse centro comercial têm origem em alguma parte do mundo e estão disponíveis para uma parte muito considerável dos clientes que nele entram (independentemente de onde são originários).

Para regressarmos a uma sociedade humana como era há uns dez ou vinte mil anos, precisaríamos de abdicar de muito (talvez até de quase tudo) daquilo que faz parte do nosso tempo. Não podemos ter smartphones nem automóveis nem muitos outros equipamentos porque, nessa altura, não tínhamos a tecnologia necessária para os criar. Não podemos ter electricidade porque a sua produção parece ter-se iniciado nestes tempos mais modernos. Sem electricidade ficamos sem electrodomésticos, sem computadores, sem smartphones, sem Internet e sem muitas outras coisas. E quais seriam as consequências que alterações deste tipo iriam ter na sociedade humana global a nível da economia, da política, de empregos e de tudo o resto (ou seja, na estrutura sobre a qual construímos a sociedade humana)?

Que percentagem dos oito mil milhões de seres humanos estão prontos para abdicar das suas vidas para regressarem no tempo?

E estamos a falar de oito mil milhões de indivíduos que precisam de comer. E é necessário alimentá-los.

3. A sobrepopulação humana é um factor crucial para o aquecimento global

O aquecimento global que estamos a atravessar é consequência da grande quantidade de gases com efeito de estufa que enviamos para a atmosfera e que são originados pelos veículos a gasolina ou gasóleo, pela produção de electricidade a partir de combustíveis fósseis, pela produção de plásticos, pela desflorestação, pelo uso que fazemos de determinados fertilizantes na agricultura, por equipamentos de ar condicionado e de refrigeração, e por mais alguns motivos.

Quanto maior for a população humana, maior será a quantidade de fontes emissoras de gases com efeito de estufa. Uma maior população implica mais viaturas nas estradas, mais electricidade produzida, mais plásticos produzidos, mais aviões no ar, mais equipamentos de ar condicionado e de refrigeração em funcionamento, mais fertilizantes utilizados, mais desflorestação e por aí adiante.

É sabido que temos vindo a tentar minimizar o aquecimento global através da redução do consumo de combustíveis fósseis. E constituindo os meios de transporte uma importante fonte de gases com efeito de estufa, parece útil retirarmos das estradas os veículos que utilizam gasolina ou gasóleo, substituindo-os por eléctricos. Abordei já, neste texto aqui, o impacto que os veículos eléctricos têm no meio ambiente e na biodiversidade e, por isso, não irei, neste escrito que agora desenvolvo, aprofundar esse assunto. Assim, direi apenas o seguinte: os veículos eléctricos podem ser uma ajuda para minimizar o aquecimento global mas não é uma ajuda fantástica. Além disso, a cada vez maior necessidade de extracção de lítio, de cobalto e de níquel para o fabrico das suas baterias tem consequências devastadoras para os ecossistemas e para a biodiversidade.

Ora, parece-me mais do que óbvio que se reduzirmos a população humana global, também as fontes emissoras de gases com efeito de estufa irão diminuir. Uma menor população humana implica menos automóveis em circulação, menos electricidade produzida, menos equipamentos de ar condicionado e de refrigeração em funcionamento, menos desflorestação, menos plásticos produzidos e por aí adiante.

4. Quanto maior a população humana, maior é a poluição plástica

A nossa sociedade está dependente do plástico e, em particular, dos plásticos descartáveis (as garrafas de água e de refrigerantes, as embalagens de bolachas, sacos, embalagens de detergentes, entre muitos outros exemplos). E este é um problema que existe em todo o mundo e não apenas em um ou em dois continentes. Certamente que há países onde o consumo de plásticos descartáveis é maior mas o seu uso é global, acontece em todos os continentes.

E, mais uma vez, entramos aqui na quantidade de população ou, melhor dizendo, na quantidade de consumidores. Como se sabe, um consumidor é qualquer indivíduo que consuma um determinado produto e quanto maior for a quantidade de consumidores, maior é a necessidade de produzir o que é consumido. E estando nós tão dependentes de produtos embalados em plástico descartável, não só os produtos em si precisam de ser produzidos e distribuídos de forma massiva, como também é necessário fabricar massivamente os plásticos descartáveis.

Existe a possibilidade de reciclagem de plásticos. No entanto, a percentagem que é reciclada é muito baixa. Globalmente, e segundo a OCDE, representa apenas 9% da totalidade. O resto acaba em aterros sanitários ou é deixada, algures, no meio ambiente. E como o plástico pode demorar centenas de anos a degradar-se no ambiente, transformando-se em microplásticos, facilmente podemos imaginar o que terá acontecido à embalagem de plástico que alguém, durante os anos 90 do século XX, decidiu atirar para um rio. Essa embalagem ainda existe. Talvez esteja quebrada em pedaços, talvez parte dela esteja já transformada em microplásticos. Mas ainda existe, não desapareceu. Está por aí, algures, no meio ambiente a contribuir para a poluição plástica e suas consequências. Se a minha leitora ou o meu leitor quiser, pode dar uma vista de olhos num texto que dediquei aos plásticos e que pode ser encontrado aqui.

A poluição plástica é um enorme problema ambiental, com consequências terríveis para muitas espécies, provocando a morte em muitos indivíduos. Ora, estando nós tão dependentes de plásticos descartáveis e sendo incrivelmente baixa a quantidade que é reciclada, quanto maior for a população mundial, maior será a necessidade de produzir essa categoria de plásticos e maior será a poluição plástica.

Claro que será extraordinariamente benéfico se, globalmente, conseguirmos reduzir substancialmente o consumo de plásticos descartáveis. Mas surge aqui o problema da dependência que temos desses materiais. Basta entrarmos num supermercado para nos depararmos com milhares de produtos embalados em plástico descartável.

Podemos também dizer que seria benéfico aumentarmos a percentagem que é reciclada (ainda que a reciclagem não seja um sistema totalmente limpo para o ambiente). Mas sendo a maioria dos plásticos em circulação produzidos a partir de combustíveis fósseis, talvez reduzamos o consumo desses combustíveis se aumentarmos a reciclagem. E, possivelmente, ao aumentarmos a percentagem que é reciclada, reduzimos a quantidade que é lançada para o ambiente.

E podemos também dizer que ao reduzirmos a população humana mundial, teremos menos necessidade de fabricar plásticos descartáveis, o que será benéfico para o ambiente e para a biodiversidade.

Como reduzir a população humana

Reduzir uma população inteira é um processo que demora décadas porque é necessário lidar com a passagem de gerações para que, gradualmente, a quantidade de indivíduos possa ir diminuindo. Porém, há métodos que podem ser seguidos.

1. Diminuir a quantidade de filhos

É importante reduzir a quantidade de filhos. Se um casal tiver apenas um filho, está a contribuir para reduzir a população humana. Se tiver dois, está a manter a quantidade de população e, se tiver três ou mais filhos, está a contribuir para aumentar a população humana.

Se falamos de famílias monoparentais, então dois ou mais filhos irão aumentar a população.

2. Eliminar as pressões sociais, religiosas ou culturais

Em algumas sociedades e/ou em alguns grupos existem pressões religiosas, sociais ou culturais que favorecem uma maior quantidade de filhos. Mas independentemente da causa dessas pressões, é necessário ter em conta que uma maior população humana implica mais consequências prejudiciais para o ambiente e para a biodiversidade. E multiplicar a espécie humana tem efeitos negativos nas outras espécies que, connosco, partilham o planeta.

Em alguns casos, as pressões para promover a procriação humana baseiam-se no facto da vida ser algo de sagrado ou algo que tem de ser aceite. Mas se essas pressões são favoráveis à existência da vida, então é necessário lidar com a vida de todos os seres vivos de todas espécies (e não apenas da espécie humana). Afinal estamos a falar de vida. E a espécie humana tem tanto direito a ela como todas as outras que vivem no mesmo planeta.

E se essas pressões para promover a procriação humana são apenas para aumentar a quantidade de indivíduos pertencentes a um determinado grupo social, cultural, religioso ou outro, então temos de ter em atenção o mundo que as gerações vindouras irão receber (será um mundo com menos biodiversidade, com mais substâncias tóxicas lançadas para o ambiente, com mais poluição plástica, possivelmente com mais guerras e por aí adiante).

3. Utilizar métodos contraceptivos

Muitos seres humanos, em particular em algumas regiões do mundo, têm pouco ou nenhum acesso a cuidados de saúde e a métodos contraceptivos. Isto acontece por razões que vão desde os fracos recursos económicos das famílias, até questões de ordem social, religiosa, cultural, política e de falta de infraestruturas adequadas, entre outras causas. No entanto, o acesso e o uso de métodos contraceptivos deve ser facilitado e adoptado nessas regiões e também um pouco por todo o mundo. Há sempre a probabilidade de haver filhos indesejados (ou não planeados) quando não existem as medidas adequadas que permitem evitar esses filhos. E claro que ter um filho não planeado poderá provocar alterações na vida dos pais que, muito provavelmente, terão de cancelar, alterar ou ajustar determinados planos e sistemas de vida.

4. Dar igualdade de género

Em algumas sociedades, as mulheres estão quase excluídas da sociedade e têm poucos ou nenhuns direitos. É uma realidade que, infelizmente, ainda acontece neste nosso mundo. Essas sociedades precisam de dar às mulheres os direitos que elas merecem e deixar de olhar para elas como uma espécie de anexo dos homens.

Portanto, é importante que as mulheres possam decidir sobre se querem ou não querem ter filhos. A vida é a delas, o corpo é delas e a decisão é também delas. E isto é válido não apenas para essas sociedades que anulam as mulheres, como também para diversos grupos de pressão que existem neste nosso mundo ocidental e que se opõem à liberdade de escolha das mulheres relativamente ao facto de tomarem decisões acerca do seu próprio corpo.

5. Melhorar as condições de vida

Podemos estar a falar de falta de acesso a métodos contraceptivos, de pressões religiosas ou sociais e de igualdade de género mas há factores que são muito importantes no que respeita à quantidade de filhos que uma família tem. São factores como a existência de estabilidade económica, política e social, o acesso à educação, o acesso a cuidados de saúde e a existência de paz.

Quando olhamos para nós aqui na Europa, observamos um cenário económico e politicamente estável. Não há guerras constantes (apesar de, à data a que escrevo, existir a Guerra na Ucrânia), não temos problemas no acesso a alimentos e a água e há sempre empregos (apesar de poder não haver aquele que pretendemos). Mas esta situação agradavelmente estável não é a mesma em todo o mundo. Há regiões que atravessam longos períodos de instabilidade política e/ou económica. E não podemos comparar o nosso modo de vida aqui na Europa com com aquele que vive uma família que mora na Etiópia ou no Sudão, num possível cenário de conflito, de fome, de falta de recursos económicos e que poderá ter sido forçada a abandonar a sua região de residência.

É importante que, globalmente, os seres humanos possam viver em condições de estabilidade económica, em paz, sem conflitos políticos ou sociais e também possuam acesso a cuidados de saúde e à educação. A existência destes factores pode ajudar a proporcionar a redução da taxa de natalidade.

Conclusão

Nós, seres humanos, temos de ganhar o hábito de olhar para além de nós próprios. Temos de olhar para o nosso planeta e compreendê-lo como um todo. Nós não somos a única espécie que habita na Terra e o Sol que nasce todos os dias é para todas as espécies e não apenas para a humana. Temos de ser ambientalmente responsáveis e as nossas vidas e respectivos estilos de vida não devem ser responsáveis por levar outras espécies à extinção.

A sobrepopulação humana é um factor muito importante para o estado actual do meio ambiente e da biodiversidade. A quantidade de consumidores humanos que existem está a provocar a destruição de ecossistemas e a empurrar muitas espécies para a extinção devido à enorme necessidade que temos de produzir e abastecer toda a população. E ainda temos de acrescentar o descarte de diversos materiais. É, por isso, muito importante que, gradualmente, possamos reduzir a população humana para níveis que nos permitam viver sem destruir ecossistemas e sem reduzir a biodiversidade.

Nós precisamos de saber respeitar o direito que cada indivíduo de outra espécie tem em relação ao planeta Terra. Nós não somos donos da Terra. Somos apenas uma espécie entre milhões. E nem sequer somos a mais importante. Se todos nós, da espécie humana, desaparecêssemos agora, a Natureza iria recompor-se do impacto negativo que lhe estamos a causar. O mundo iria renascer como era há uns dez mil anos e a Natureza só iria reparar que desaparecemos porque se viu revigorada. No entanto, se os insectos desaparecerem, os ecossistemas entrarão em colapso e muitas espécies irão extinguir-se devido ao desaparecimento dos insectos.

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